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Delicadezas urbanas

Fui assistir ao novo filme de Cédric Klapsich, "Bonecas Russas". Atrás de minha poltrona um exemplar de civilidade.


Fui assistir ao novo filme de Cédric Klapsich, "Bonecas Russas" e atrás de minha poltrona havia um exemplar de civilidade sentado. Ao menor comentário que fizesse com minha acompanhante, um chute no encosto de minha cadeira era imediatamente sentido.


Tenho claro que conversadores de cinema são desagradáveis... mas também está certo que eu não falei tanto assim e, muito menos, alto. Me pareceu se tratar de uma daquelas civilizadas criaturas que, à menor contrariedade, partem para a grosseiria.


Comecei então a imaginar situações de descontentamento no meu cotidiano e as reações que poderia ter, seguindo o modelo do meu vizinho. Penso então nas vezes em que entro em elevadores com senhoras usando perfumes que fazem minha rinite entrar em ação. Como reação "natural" poderia pisar nos pés das "desgraçadas" que tiveram a idéia se perfumarem.


Posso também me ver na situação de estar em um restaurante cuja conta me é apresentada com erro. Para mais, claro. Ao invés de simplesmente reclamar, como seria aceitável, pego minha taça e despejo o resto de vinho tinto na cabeça do infeliz do garçom.


O mundo ficaria sensacional se todo mundo fosse assim. Se a cada pequeno desconforto, seja ele fruto da falta de limite alheio ou mero resultado de nossas próprias neuroses, partissemos para a agressão.


Não me parece que este seja o melhor caminho a seguirmos. Tolerância e capacidade de negociação são qualidades fundamentais para evitarmos de chutes no cinema a tiros no trânsito.

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