Pular para o conteúdo

1. Fabián e o caos - Pedro Juan Gutierrez

2. Afiadas - Michelle Dean

3. A Uruguaia - Pedro Mairal

4. Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais - Jaron Lanier

5. Maria Bonita: sexo, violência e mulheres no cangaço - Adriana Negreiros

6. O peso do passaro morto - Aline Bei

7. A Resistência - Julian Fuks

8. Revolução Laura - Manuela D’Avila

9. Chelsea Girls - Eileen Myles

10. Tradutor de chuvas - Mia Couto

11. Sejamos todos feministas - Chimamanda Ngozi Adiche

12. Bonsai - Alejandro Zambra

13. A vida privada das arvores - Alejandro Zambra

14. Teoria King King - Virginie Despentes

15. A literatura nazista na américa - Roberto Bolaño

16. Aqui de dentro - Sam Shepard

17. Só as partes engraçadas - Nell Scovell

18. Lugar de fala - Djamila Ribeiro

19. A filosofia de Andy Warhol - Andy Wahrol

20. Distância de resgate - Samantha Schweblin

21. Lorde - João Gilberto Noll

22. Prólogo, ato, epílogo - Fernanda Montenegro

23. Duas damas bem comportadas - Jane Bowles

24. A ordem do dia - Éric Vuillard

25. Devoção - Patti Smith

26. O ano do macaco - Patti Smith

27. Tribunal da quinta-feira - Michel Laub

2019 foi um ano horrível. Não pra mim, particularmente. Pra humanidade. Reuniram uma canalhada e deram pra ela um brinquedinho: nós. Aqui, lá e acolá.

No grosso modo tive um ano sem grandes avanços. Mas sou mulher de minúcias e de âmagos. E aí eu brilhei.

Basicamente retomei a posse de mim mesma. Por muitas décadas encordoei um casamento no outro. É/foi bom mas viver plenamente e sem sofrimento, ao contrário, com prazer, a minha própria existência pequena, grande, medíocre, intrépida, safada, tímida, eloquente ou ensimesmada... foi fantástico.

Entrarei 2020 certamente mais Márcia do que nunca. Viva-se com isso.

(Texto modelo querido diário aproveitando que ninguém lê esta coisa mesmo).

Exatamente um ano após, em 15 de 2019, fui a mais uma edição do Popload Festival e para assistir a maravilhosa Patti Smith. De quebra outros shows também.

Não vou escrever... só postar algumas fotos:

Luedji Luna
Little Simz
Khruangbin
Tove Lo
Cansei de ser sexy
Hot Chip
The Racounters
Patti Smith

Rede social, internet em geral, jornais, rádio, tv e encontros presenciais. O presidente conseguiu ser o assunto único do país. Na bolha em que habito a percepção que temos dele é a pior possível mas respingam em mim alguns defensores e seus argumentos delirantes. De qualquer modo, tempos monotópicos.

Então eu tenho lido bastante. Não tanto quanto os blogueiros do setor mas uma media de três livros ao mês.

Nunca pensei que ler pudesse ser ferramenta para a "alienação". Vejam só que momento absurdo.

Em São Paulo para o Poploud Festival. Várias bandas mas vim mesmo para ver Blondie. Debbie Harry mesmo.

Não sei se vi alguém mais velho que eu por lá. Uma moça até perguntou se eu teria ido pra levar minha filha. Comento pois uma das expressões que mais ouvi foi "tá difícil". Nas filas (nada grandes), nos banheiros... por tudo.

Dava vontade de dizer que difícil é ficar em casa vendo TV. Ou que difícil é lidar com artrose, aquilo ali é prazer. Geraçãozinha mimadinha da peste.

Logo após a vitória do coiso na eleição começou o processo de responsabilização. Ciristas e petistas se acusando mutuamente. Eu, sem ilusões puristas, curta e grossa as always, digo:

  1. Partidos políticos têm por finalidade chegar ao poder. Seja para sinceramente implementarem os planos de governo que julgam os melhores para aqueles que representam ou para se locupletarem. Desta forma acho lícito o PT ter insistido em candidatura própria, sobretudo para marcar sobrevida neste momento de agonia.
  2. Ciro tem projeto político pessoal e por genuína discordância programática ou para dissociar-se totalmente do movimento majoritário - o anti-petismo, decidiu por um voo solo. Ao menos por ora. Possivelmente se coloca em posição de oferecer asas que abriguem os minions que inevitavelmente se frustrarão em 3, 2, 1... Nenhum crime ai.
  3. Nos poupemos de afirmar, sobre estas duas forças, que “nunca mais”, “está morto” etc. Os cenários mudam e as escolhas eleitorais, sabemos, obedecem mais a critérios de exclusão que de convicção. O velho “política é a arte do possível”.

A chave de tudo são os ausentes. Quem são? Onde vivem? O que pensam? Pensam? Daqui a quatro anos, se houver eleição, vencerá quem ganhar os desiludidos da direita, a parcela dos hoje ausentes por orfandade representativa consciente e parte do eleitorado de esquerda temerosa de uma nova lambada como a deste ano.

Se houver eleição, repito

Sabe aquela mãe que sempre protege o filhote e a culpa de tudo são os outros? O filho é um anjinho mas as companhias... “fulana” que é danada e levou minha lindinha a transformar em inferno a vida da menina diferente da sala. E assim vamos consolidando esta cultura do “o culpado é sempre o outro”. O político, o síndico, o comerciante da venda... o outro. Qualquer que seja.

Nossa propina pro guardinha que ameaçava nos multar é só um “pra cervejinha”. O troco errado a mais que embolsamos é uma espécie de ressarcimento pela exploração do empresário ganancioso. O imposto que este mesmo empresário não paga é porque “de que adianta se vão roubar”?

Tudo conversa velha. Mas eu aqui no meu cantinho estou só esperando para ver a reação dos brasileiros de bem quando o relho e a bala do justiçamento sumário institucionalizado atacar pra cima deles. E vai. Porque será o dono do relho e da bala quem vai definir merecimento. E, como acredito, este negócio de a culpa ser sempre do outro não é bem assim.

Cada um de nós é o outro do outro. Vai sobrar pra você ou pros seus também.

Sábado à noite e a despeito dos convites, opto por um Belini, um livro e lareira enquanto meu jantar está em andamento.

Poderia estar numa festa, poderia estar namorando, poderia qualquer coisa. Mas estou absurdamente contente aqui neste momento.

That's all, folks!

Gente do céu! Deixei de ser a versão old-woman-piá-de-prédio e estou amando. Eu morava em um condomínio com casona, terrenão, quadra de tennis, piscina, tucanos, serelepes etc. Andava também num flamejante carro destes que todo mundo ama e acha lindinho. Então minha vida deu uma guinada, vou poupá-los e a mim dos detalhes sórdidos, e decidi colocar em prática algo que já vinha pensando há algum tempo: simplificar a vida.

Indico muito.

Achei apartamento num prédio antigo, caído, o barriga negativa em termos de luxo. Porém reformado por sua antiga proprietária, uma arquiteta que recomendo, e feito sob medida para minhas necessidades. Num bairro muito próximo ao centro e com tudo perto. Muito perto. Tão perto que passei a fazer quase tudo andando. Em Nova York as pessoas moram assim e os brasileiros "moderninhos" acham cool. Aqui não sei...

Ao invés de um personal indo em casa, passei a frequentar pequeno estúdio a dois quarteirões. As aulas são em duplas e pago 50% do que pagava antes. Na frente do prédio tem um salão com excelentes manicures e pedicures. Vou até lá de chinelinhos. Lindo. E outro dia meu fiel pau-pra-toda-obra falou que eu precisava trocar o sifão da pia do banheiro e tão somente atravessei a rua para comprar um na mercearia que tem de tudo, tipo aqueles antigos armazéns.

Mesmo o tennis, minha paixão eterna, não sofreu. Para jogar saí do isolamento a que me submeti por anos e ingressei em um grupo com mais de 30 mulheres tenistas. E num raio de no máximo 2 quilômetros existem três academias com professores e quadras de aluguel. Banco e todo tipo de comércio próximos, ao mesmo tempo em que minha rua é muito tranquila, entre avenidas de maior movimento.

Padarias artesanais, restaurantes de diversos tipos e de etnias variadas, bares...

E já que não ando mais tanto de carro e nem estou disposta a gastar uma viagem a Paris por ano entre IPVA, seguro e revisão, troquei meu automóvel por um mais em conta. Até agora muito satisfeita porque vamos falar a verdade... se um carro fosse responsável por minha felicidade aí sim eu estaria encrencada.

Agora o melhor: nestas andanças todas pra cá e pra lá eu interajo com as pessoas, algo que num condomínio afastado de tudo eu não fazia mais. Falo com o gari, já estou amiga do cadeirante que vende sacos de farinha na esquina da academia, do moço do lava-car e converso com gente de universo que vai além dos laços profissionais/mercantis.

Não tenho mais (e nem componho) entourage, só amigos com quem mantenho relações de igualdade. Gente que combina, cotiza e faz a festa. Que se empenha em me apoiar nesta nova vida por nada. Só porque eu sou legal.

Até um  novo trabalho tem me mobilizado. Algo diferente, novo para mim. Instigante.

Uma vida real que permite que eu não deixe de fazer as coisas que amo mas de forma "sustentável" e mais humana.

O que eu fiz está lá. Tenho muito orgulho de minha capacidade construtiva. Se fui capaz de construir paredes, muito mais prazeroso me erguer.

Faz um bem enorme, sobretudo por não ter deixado para trás rastros de indignidade.

"tenho uma vida branca
e limpa à minha espera" (Ana Cristina César)