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Das lembranças

Memória é coisa esquisita. Guardamos nela o que queremos e apagamos o que pouco nos interessa. Neste baú cabem lembranças agradáveis ou traumáticas, mas isso não é regra. Minha memória me surpreende com imagens que aparentemente não teriam a menor relevância. Nem para o bem e nem para o mal.

Memória é coisa esquisita. Guardamos nela o que queremos e apagamos o que pouco nos interessa. Neste baú cabem lembranças agradáveis ou traumáticas, mas isso não é regra. Minha memória me surpreende com imagens que aparentemente não teriam a menor relevância. Nem para o bem e nem para o mal.

Uma delas me veio à mente outro dia e desde então não me sai da cabeça. Ela me leva aos 11 anos de idade. Morava em Porto Alegre, no bairro Menino Deus, e frequentava a piscina do clube Grêmio Náutico Gaúcho, para o qual ia sozinha. Era -e ainda é-, uma piscina enorme. "Olímpica" em seus 50 metros de comprimento e 25 de largura. Lembro de minhas sofridas braçadas para atravessa-la uma, duas, três vezes.

Lembro do Omar, um "namorado" abandonado tão logo me pediu um beijo embaixo d'água. Não recordo seu sobrenome mas nasceu em Cruz Alta, onde seu pai tinha uma sorveteria. Guardei esta informação não por ser Omar o "filho do dono"... mas porque até hoje não desvendei um segredo que me foi revelado por ele: "Márcia, não se faz sorvete de melancia. É impossível. Não presta". Se alguém souber o motivo, me avise. Encontrei Omar anos depois, já ambos com uns 20 anos. Estava bonito pra danar  e então dei o beijo negado no passado mas esqueci do mistério da melancia.

Tudo isso eu lembro como uma cena só. Em close, plano geral e traveling sem cortes, embalados pela mais doce de todas as memórias auditivas da minha vida. As braçadas, as tentativas de ornamentar meus saltos, as brincadeiras com Osmar, o beijo negado e a informação da melancia... tudo isso ao som de duas músicas: "Killing me softly with his Song" (..."strumming my pain with his fingers, singing my life with his words"...), na gravação de Roberta Flack, e "Eu só quero um xodó", gravado por Gilberto Gil no álbum "Cidade do Salvador". Ambos sucessos do verão 1973/74.

Engraçado que a tristeza das letras contrastam com a alegria que me transmitiam. Seguramente estavam associadas a departamentos interiores que, aos 11 anos, não contemplam baixo astral.

E felizmente assim as mantive.

Eu só Quero um Xodó

Que falta eu sinto de um bem
Que falta me faz um xodó
Mas como eu não tenho ninguém
Eu levo a vida assim tão só
Eu só quero um amor
Que acabe o meu sofrer
Um xodó pra mim
Do meu jeito assim
Que alegre o meu viver


Killing me softly with his song

Strumming my pain with his fingers
Singing my life with his words
Killing me softly with his song
Killing me softly with his song
Telling my whole life with his words
Killing me softly, with his song
I heard he sang a good song, I heard he had a style
And so I came to see him, and listen for a while
And there he was, this young bwoy, a stranger to my eyes
I felt all flushed with fever, embarrassed by the crowd
I felt he found my letters, and read each one out loud
I prayed that he would finish, but he just kept right on
Oh, oh, oh... La, la, la, la...