Finalizando a bike

Uma bicicleta com paralamas tão bonitinhos não poderia deixar de ter um bagageiro. Consegui um que achei interessante e deu certo. Levei na mesma bicicletaria que pintou o quadro de preto.

Vim pra casa bem feliz da vida, devagar pra bike não despencar desta geringonça (geringonça é o rack, não o carro… quer dizer…).

Ficou muito bacana.  Cheguei em casa e pendurei uma bolsa que tinha ao menos até encontrar algo mais legal, mas já fiquei satisfeita com o efeito.

Ócio vespertino

Dia de folga e resolvo ficar em casa depois de muito tempo. Estes momentos em que fico quieta no meu canto fazem falta, são raros.

Dia de folga e resolvo ficar em casa depois de muito tempo. Estes momentos em que fico quieta no meu canto fazem falta, são raros. Entre um livro, um CD e a televisão divido minha tarde de ócio absoluto. A Telefunken/76 está um pouco empoeirada e, quando vou ligar o velho aparelho, tomo vergonha e pego no paninho.


Busco a revista da NET e começo a maratona. Além dos usuais documentários do mundo animal e seriados, é impressionante a quantidade destes tipos de programas, filmes, desenhos e mais documentários. A MTV mostra pela milionésima vez o clip do Jamiroquai e um outro canal apresenta a vida de Jackie O.


O GNT reprisa a série Terra Brasil, com a apresentação monocórdica de Lúcia Veríssimo quase pondo a perder os esforço da produção, que caprichou na pauta, religião, e nos entrevistados. Falou Dona Canô, falou Caetano, falaram luteranos, católicos e representantes de todas os dogmas. Interessante.


Programa de apenas meia hora de duração, acabou rápido e logo segui pilotando meu controle remoto. Fui para a TV aberta. Reprise de novela, mais mundo animal, um programa local que nem merece menção, a loura-vespertina recordista de permanência no ar. Nada.


Começo a lembrar uma cena vivida no trabalho. No início da semana estava sentadinha em frente ao computador quando vejo a “chefe” vir muito séria em minha direção. Apesar de não fazer o tipo irado, é “chefe”. Soltei um “ai” em pensamento e ouvi: “Márcia, você viu o jogo que a Globo transmitiu no domingo?


Não tinha visto São Paulo x Corínthians e, pelo o que senti, nem ela conseguiu. Como o assunto era futebol logo se formou uma rodinha. E começaram a me contar os detalhes da tal transmissão.


Parece que na falta de tradição em cheer-leaders estamos inovando. Como informação adicional ao esporte, entrevistas com esposas de jogadores. Chitãozinho e Xororó dão seus palpites, e por aí vai.


E isto é só um preâmbulo para o que prometem fazer na Copa, quando Suzana Werner fará entrevistas com a torcida; Pelé, Falcão e Casagrande abobrinharão em nossas cabeças; e sabe lá mais o que.


Volto para meu aparelho e na telinha está Sílvia Popovic com mais um de seus polêmicos assuntos.


Antes que a vontade de voltar correndo para o trabalho tomasse conta de mim peguei minha bolsa e fui ao cinema.


Subitamente senti a maior compaixão pelos desempregados. Além da triste situação de improdutividade e penúria que vivem, nada para ver na televisão durante a tarde.

Folhetin (sic) cosmocrático

Estava lá. Um programa dedicado à educação brasileira. Gostei. “Show Brasil 500 Anos”. Dedicado à educação e lá pelas tantas, Gal cantando o já clássico de Chico, a legenda: “Folhetin”. Isto, com n.

Estava lá. Um programa dedicado à educação brasileira. Gostei. “Show Brasil 500 Anos”. Dedicado à educação e lá pelas tantas, Gal cantando o já clássico de Chico, a legenda: “Folhetin”. Isto, com n.


Achei bacana. Combina com o estado da educação no país e com a patética cena que pessoalmente protagonizava naquele momento. É verdade… depois de dias de chuva e umidade capazes de não secar peça qualquer, véspera de viagem, eu passava roupas.


Entre una planchada y otra… passavam os cantores em minha frente. Muitos em performances normais, outros até surpreendentes e alguns em situações no mínimo curiosas.


Caetano cantava Carolina pra ninguém pois o áudio sumiu. Não sou do tipo que acha isto tão terrível pois é obra do azar e quem trabalha sabe muito bem disso. É o imponderável que acontece. Mas imagino Caetano, com seu modesto ego, soltando discurso nos corredores.


Enquanto o Skank cantava “É Proibido Fumar”, o público gritava: “maconha”. E era muita gente, fiquei impressionada. Em rede nacional, puxa! Qualquer dia os cara-pintadas vão às ruas pela legalização. Vai ser os cara-pintadas contra os de cara.


Aí teve uma Baby “ex-Consuelo” do Brasil em versão pós-globalizada. Ela defendeu para os brasileiros uma tese mais ou menos assim: cada um fazendo um pouco vamos chegar ao terceiro milênio em uma cosmocracia. Ela vai além da tão falada globalização e quer a unificação do Cosmo. Isto é que visão de futuro.


O programa teve seu lado sacanagem. Fazer Gabriel Pensador cantar é crueldade. Com ele e com todo mundo. Num dueto com Martinho da Vila perdeu feio. Martinho revelou-se melhor rapper que Gabriel sambista.


E costurando tudo… Maurício Kubrusly. Pessoalmente acho que Zeca Camargo teria feito melhor. Mas escolha e escala são coisas em que ninguém se mete…

Didatismo pueril

Domingo gosto de acordar tranqüilamente, tomar café com o jornalão e assistir Globo Rural. Um dos melhores programas da televisão brasileira. E não falo isso em causa própria. Não o assisto apenas por interesse profissional, ao contrário, talvez sua qualidade tenha contribuído para que eu caísse nesta seara.

Domingo gosto de acordar tranqüilamente, tomar café com o jornalão e assistir Globo Rural. Um dos melhores programas da televisão brasileira. E não falo isso em causa própria. Não o assisto apenas por interesse profissional, ao contrário, talvez sua qualidade tenha contribuído para que eu caísse nesta seara.


Há anos Globo Rural está entre os líderes de correspondência na emissora, o que equivale dizer no país. E merecidamente.


Além da inquestionável qualidade técnica e da identificação que seus repórteres conseguem alcançar com o público do programa, Globo Rural ainda cumpre um importante papel no processo de levar informação ao homem do campo. Pode se dizer que o programa tem até um caráter extensionista.


Faz isto sem o superficialismo ou o didatismo pueril da maioria dos programas, sejam eles jornalísticos ou de ficção. É favorecido por não ser um programa que aborde temas comportamentais, o que lhe garante uma menor margem erro.


Os programas comportamentais de um modo geral são irritantes para muitas pessoas, entre as quais me incluo, por serem absolutamente moralistas. A mocinha deve assumir seu romance com o presidiário? Mesmo se for uma assistente social que infringiu seus princípios éticos ao envolver-se emocionalmente com quem deveria manter-se nos limites do profissionalismo.


De “Você Decide” a “Mulher” (ela novamente), o que vale não é falsa idéia de estarem colocando grandes temas em debate. O que sobra depois de tudo é um julgamento moral. E eu não gosto de julgamentos morais. Sejam eles frutos da ficção ou da realidade.


Duas fórmulas distintas. Duas fórmulas de sucesso inquestionável. Mas eu prefiro a do Globo Repórter, que jamais assume uma postura maniqueísta.

Um “hospital” que só não dói no bolso

Desde que inventamos esta de escrever semanalmente no Baguete sobre televisão tenho feito um esforço além do humano para ver certos programas que lideram o Ibope.

Desde que inventamos esta de escrever semanalmente no Baguete sobre televisão tenho feito um esforço além do humano para ver certos programas que lideram o Ibope. Por mais telemaníaca que fosse, e nunca fui muito, jamais meu “paladar” suportou nível tão baixo quanto o dos programas que lideram em audiência.


E agora me obrigo a ver para não me tornar daquelas pessoas que nunca viram e não gostaram.


Feito este preâmbulo, para justificar-me ante os de bom gosto, estou com a TV ligada e nela passa “Plantão Méd..”, ops, “Mulher”. Novelão em película. Tsk, tsk, tsk. Só corrobora a tese de que televisão é ótimo, o que atrapalha um pouco é a programação.


Pra começar o roteiro. Horrível. O renomado Doc Comparato ataca de Sidney Sheldon sem sacanagem. Só sobra drama e miséria humana. Impossível suportar a série de doentes-terminais que passam na tela. E um diálogo permeado de frases lindas como : “a verdadeira dignidade está em lutar pela vida e não pela morte”. Tocante. Vai fundo no fígado, embrulha o estômago e dá ânsia.


Onde estão os roteiristas? Não posso crer que seja falta de interesse das produtoras em contratar bons roteiristas.


Resumo da coisa para quem não viu. No mesmo hospital estão Rosa, com um câncer que a deixa em estágio terminal, e uma mulher com morte cerebral e grávida. De um lado, Rosa pressionando Dra. Patrícia “Cris” Pillar a praticar eutanásia. De outro, Dra. Eva “Martha” Wilma lutando para salvar ao menos o bebê da segunda. Dramas de consciência e muitas cenas de UTI depois, morrem Rosa e a grávida. Vive a criança.


E qual não é a surpresa final? Sim… o pai, sem saber o que se passava em “O Hospital”, coloca em sua recém-nascida filha o nome de… Rosa. Lindo. Quase chorei.


Ainda bem que era na Globo. Ao menos por isso eu não pago.

Gabi vira “escada” pra Carla Peres

O horário é praticamente o mesmo, domingo-23h30, mas uma geração separa “Cara a Cara” e “De Frente com Gabi”. Mudaram os tempos, mudaram as celebridades ou mudou Marília Gabriela.

O horário é praticamente o mesmo, domingo-23h30, mas uma geração separa “Cara a Cara” e “De Frente com Gabi”. Mudaram os tempos, mudaram as celebridades ou mudou Marília Gabriela.


Os dois programas, praticamente de mesmo formato, agora tão distanciados em anos quanto em “quilate” dos entrevistados. Yasser Arafat levantou da poltrona e deu lugar a Hebe Camargo. Fidel Castro, entrevistado quando ainda mito, cedeu o assento (a cadeira, entenda-se) para Carla Peres.


Com todo o respeito pelas famosas e falsas louras, e com todo o desprezo pela classe política… há uma bela distância entre os programas duas Gabis. É como se entre a política e a diversão de massa não houvesse nada. Fosse o limbo. É claro que na década de 80, ambientação de “Cara a Cara”, uma entrevista que reunisse política, pensamento, livre falar e um clima de íntima verdade era revolucionário. Ainda mais quando a jornalista era uma mulher.


Naqueles dias todos ansiavam por alguém que chegasse na televisão e arrancasse respostas inteligentes de pessoas que tinham o que dizer. Ou mais, as pessoas ansiavam ouvir o que estas pessoas tinham a dizer porque isto era novidade no país. Era um deslumbramento com a informação anteriormente roubada.


Hoje não. Hoje parece que todo mundo já está cansado de ouvir qualquer coisa e a filosofia que impera é a do “bullshit”. É o escancaramento do cinismo e da descrença, alimentados pela pobreza que tomou conta da televisão brasileira. Nunca foi tão caro fazer televisão, nunca se gastou tanto e nunca se teve tão pouco pra gastar na televisão. Os talk-shows investem todas as fichas no carisma e capacidade do entrevistador, é o caso da Gabi e também do Jô Soares, e pouco sobra para a produção se esmerar.


Entrevistar uma celebridade de verdade sai bem mais caro do que cair na tentação fácil dos oferecimentos que chegam por telefonemas, cartas e mails de cada canto do país às equipes de produção destes programas. E acaba nisso, Marília Gabriela – o similar mais próximo que tínhamos da legendária repórter italiana Oriana Fallacci – cede aos sucessos do momento, ao apelo popular e aos bem elaborados planejamentos de marketing. Vira “escada” pra Carla Peres e congêneres.


E nem ineditismo tem a seu favor. A gente muda o canal e as cenas se repetem. São os mesmos entrevistados, plantonistas de estúdio, só variam emissora (nem sempre) e entrevistador. E depois de um tempo parece que nem estes mudam. É por isso que “De Frente com Gabi” é muito, muito triste. É patético e dá uma certa saudade.

O tudo é tudo e o nada é nada

Era criança ainda quando a moda ditava falar mal da Rede Globo, tendência que foi se esvaziando com o tempo, felizmente. No meio da minha adolescência já se podia admitir que assistíamos Chacrinha, novelas e até Fantástico. Criticar a Globo passou a ser então, outro extremo, era algo out. Mas cá entre nós, in ou out, vez por outra ela bem merece uma tomatada.

Era criança ainda quando a moda ditava falar mal da Rede Globo, tendência que foi se esvaziando com o tempo, felizmente. No meio da minha adolescência já se podia admitir que assistíamos Chacrinha, novelas e até Fantástico. Criticar a Globo passou a ser então, outro extremo, era algo out. Mas cá entre nós, in ou out, vez por outra ela bem merece uma tomatada.


No domingo em que Tim Maia morreu recebi a notícia via MTV. Imediatamente pensei: “o que a Globo vai fazer”? Imaginei que pudesse ter a decência de apenas noticiar o ocorrido mas não, como temia ela foi além. Durante todo Fantástico, que vi só para comprovar minha premonição, trechos de shows e depoimentos de colegas do “síndico-senador”. Pior… anúncios de um “Especial Tim Maia”.


O espanto que tive se deve a um simples fato: Tim Maia, espero que muitos lembrem, estava barrado da programação da Rede Globo, ao menos dizia isto em todas as entrevistas concedidas para jornais, rádios ou outras emissoras. Tim Maia deplorava Roberto Marinho por excluí-lo da vitrine que a Globo representa.


E agora, quando o gordo Tim não tem mais qualquer domínio sobre sua obra e seus sub-produtos (vídeos, discos, etc.), vem a Globo render homenagens a ele. Bem, ao menos não foi hipócrita o suficiente para repetir o que fez em outras oportunidades ao fomentar a comoção nacional via morte do Senna, Tom Jobim e Mamonas.


É claro que a ela sempre restará o argumento de ter cumprido sua obrigação jornalística de informar o telespectador (com um especial?). Mas não seria também sua obrigação noticiar o que andava fazendo Tim Maia, perdoem-me a redundância, vivo? Ele não era um cantorzinho qualquer. Fazia parte de um seleto grupo de compositores e de um mais seleto ainda grupo de cantores brasileiros.


Só consigo imaginar uma situação mais criticável que esta. Não é agouro, por favor, mas se a morte do Brizola um dia render um Globo Repórter… aí vai ser piada.

Verde-e-rosa valvulado

Sou uma telemaníaca dissimulada que em plena era da tela plana, da transmissão em estéreo e do controle remoto multifunção, mantenho o aparelho Telefunken/76 que ganhei do meu pai após vencer uma aposta feita com ele. As visitas que chegam aqui em casa imaginam que para ter uma relíquia destas não devo ser muito apegada ao veículo. Enganam-se.

Sou uma telemaníaca dissimulada que em plena era da tela plana, da transmissão em estéreo e do controle remoto multifunção, mantenho o aparelho Telefunken/76 que ganhei do meu pai após vencer uma aposta feita com ele. As visitas que chegam aqui em casa imaginam que para ter uma relíquia destas não devo ser muito apegada ao veículo. Enganam-se.

Adoro televisão, e a minha, com sua caixa de madeira, a tela convexa, os botões deslizantes (daqueles que enchem-se de pó nas entranhas) e um seletor de canais onomatopéico… me seduz ainda mais. Quando eventualmente viro o seletor e escuto o familiar “traaak”, supero todos problemas de contraste e brilho.

A boa e velha máquina desperta em meus amigos um interesse antropológico e já recebi ótimas ofertas por ela, nenhuma suficiente para me fazer trocá-la. Mesmo televisão sendo hoje um produto tão barato, poderia acoplar vídeo e NET em algo mais moderno, resisto.

Faço as contas e percebo que tenho outras prioridades. O recém comprado e espetacular aparelho que ligado à eletricidade cozinha seis ovos ao mesmo tempo, por exemplo. Utilíssimo.

E assim sigo a postergar a substituição da antológica TV. Claro, é uma TV com história. Acompanhou “Vale Tudo”, derrotas e vitórias em Copas, 21 entregas do Oscar e tudo o mais quanto lhe coube propagar em sua longa vida.

Infelizmente nos últimos tempos venho percebendo nela uma certa tristeza. De um limite máximo de 13 canais VHS, nunca preenchido, saltou para mais de cinqüenta com o advento do cabo. Mesmo assim não sinto na antiga companheira qualquer contentamento adicional. Primeiro porque o já mencionado seletor agora repousa estático no canal 3. O intruso controle remoto do vídeo e da NET fazem todo o serviço, obrigando-a a programas terríveis, inclusive.

Cansa-se a pobre de passear por tantos canais sem encontrar um porto seguro. Parece não gostar do que lhe oferecem portugueses, italianos, franceses, árabes, ingleses, canadenses, alemães e tantos outros. Enjoou-se das descobertas de Vida Selvagem, das viagens monótonas do Travel e, sobretudo, teme que através do Shoptime chegue finalmente a hora de sua aposentadoria.

Tento acalmá-la dizendo que não preciso de um novo equipamento para ver televisão do jeito que o faço… zapeando. Mas ela não confia em mim. Maquininha de boa memória, sabe as horas de uso que a obriguei cumprir. Sabe que este desdém pela televisão é falso e que no fundo sou viciada.

Minha velha Telefunken pressente seu fim. Julga que o verde-e-rosa da Mangueira já é demais para ela. Argumento que na hora em que Chico passava na avenida o que me irritou não foi seu tom desbotado, mas a descarada torcida dos comentaristas da Manchete.

Qual o quê!? Ela segue lastimando não ter podido me oferecer a implosão do condomínio Palace II em todas suas nuanças. Mais uma vez saio em sua defesa e explico que naquela instante mudei de canal por não suportar ver tanta “preocupação” da Globo em desmascarar o deputado Sérgio Naya. Irritou-me não o embaçado de sua imagem, mas ver que todas aquelas fitas e vídeos já estavam gravados, aguardando apenas a morte de pessoas para virem à tona.

Coitada da TV. Entristecida por saber, mais do que eu, que sua aposentadoria chega. Não percebe que para ela será um descanso. Eu sim continuarei sofrendo, vítima de um vício de raras contrapartidas.