Ignorar economiza energia

Meu último “casamento”  terminou e fiquei com um problema. Para sair da minha nova casa em direção ao trabalho precisava passar na casa antiga. Inicialmente isso não me agradava pois, pensava eu, poderia dar a impressão de estar fiscalizando e, pior, me faria lembrar diariamente do quanto eu “era feliz”.

Então, para evitar tudo isso, eu fazia um desvio muito desconfortável para chegar na agência. Felizmente durou pouco. Sequer uma semana. Logo me dei conta que lembrar todo dia de mudar o trajeto natural era tão desgastante quanto passar na frente do velho prédio. E já que não havia mais relação alguma, o que pensassem ou deixassem de pensar de mim não mudaria o inexorável fato de que estava mesmo tudo acabado.

E voltei ao trajeto mais rápido e tranquilo. E logo nem mais espichava o olho para aquela sacada do nono andar.

As conexões que nossa mente faz. Lembrei disso ao observar pessoas no twitter apontando para postagens alheias com desdém.

A energia que gastam reclamando do que o outro escreve é muito maior do que gastariam  simplesmente dando unfollow ou ignorando. Mas gente tem que reclamar ou sofrer, né?

Posso achar chato?

A grande vantagem de ter um blog inexpressivo como este é que posso escrever o que quiser, sem medo de apanhar da humanidade. Por exemplo: posso dizer que desde que me conheço por gente acho a chamada vanguarda paulista (de todos os tempos) chata. De Itamar/Arrigo a todas novidades que percorrem o circuito cultural da modernidade ultra cabeça do tipo Petit, Becker, Aidar etc.

Eu não estou dizendo que são ruins. São bons. Apenas os acho chatos. Também não quero que sumam e parem de trabalhar. Ao contrário, que prosperem. Posso achar chato? Posso achar o que eu quiser?

Só não entendo, acompanhando o imbroglio que envolve Alvaro Pereira Jr., da FSP,  porque os adoradores deste povo podem malhar Restart e Claudia Leite (e faço coro a eles) mas o mesmo não pode ser feito com os queridinhos do universo alternativo-cabeça-universitário.

Sei que o jornalista fez insinuações/considerações políticos-econômicos… mas me irrita observar que este país anda num processo crescente de democracia “só para mim”.

Só para o que “eu” penso e acredito.

Pause

Ah! Sei que tem gente sem braço, sem perna, sem dinheiro pra tratamento e remédio, sem alguém pra acompanhar. Sei também que existem outros com tudo isso, porém sem chance de cura.

Ocorre que sou filha única mimada que não fez o rito de passagem para a condição de mãe… continuo filha. E isso me concede o patológico direito de dizer que estou PUTA DA VIDA  com a bosta do meu cotovelo que não melhora e que dói pra cacete e me restringe um monte.

E como, apesar disso tudo, tenho um mínimo de consideração por mim e pela humanidade, decidi me ausentar das redes sociais por um mês para que meu mau humor não me ponha a destilar veneno entre aqueles que aprecio.

E, ainda, considerando que não vou parar de escrever, dirigir, comer, escovar os dentes, pentear cabelo e atividades afins… resta deixar um pouco de lado os smartphones de todo tipo.

Vou me empenhar. Ou tentar.

A nova velha moral

Dep. Barreto Pinto em foto de Jean Manzon/1946

Os outros são safados, ladrões, corruptos e corruptores. Nós somos aqueles que lutamos pelo que queremos, usando as armas que estão ao alcance. Este é o mundo que estamos testemunhando com lente de aumento na Internet e suas redes sociais.

E calma! Não culpo o meio, ao contrário. É graças a ele que podemos perceber esta hipocrisia com olhar microscópico. Ali as pessoas se colocam. Mostram o que pensam e o que defendem, mesmo quando não é esta a intenção.

Reclama-se do policial que chega com o pé na porta do casebre na favela, atirando em quem estiver pela frente. Mas julgamos em rito sumário qualquer escorregadela de um incauto. Depois a gente vê se ele de fato cometeu “o crime” que imputamos a ele.

Falamos mal da imprensa manipuladora e perversa mas somos ávidos em espalhar boatos em #140. Em replicar maledicências de todo tipo.

Malhamos Bolsonaro quando se manifesta homofóbico e racista mas gargalhamos quando Rafinha Bastos justifica estupro de forma até apológica.

Exigimos comportamento minimamente correto, livre de preconceito, mas detonamos aquele que ousa aparecer na mídia com uns quilos a mais ou trajando algo que julgamos inapropriado. Ou feio.

Execramos Sarney e seus métodos eleitorais mas assistimos impassíveis a robôs manipulando votações de BBB. Até achamos bacaninha quando uma banda tenta conquistar vaga em festival de rock usando artifícios nada lícitos.

Fico realmente impressionada com nossa capacidade de regular a balança conforme nossos interesses.

Falamos, falamos, falamos dos nossos pais mas nos especializamos na arte de pregar moral de cuecas.

Se o caso Escola de Base…

…fosse hoje, só restaria a seus proprietários uma mudança planetária. As redes sociais viraram a praça pública de apedrejamento. Poucos tentam olhar os dois lados e os julgamentos são sumários. Dois fatos recentes me fizeram pensar nisso: a exigência do uso de uniforme e crachá para as babás que acompanham crianças no Clube Pinheiros de São Paulo e o atropelamento dos ciclistas em Porto Alegre.

Esta questão do Clube Pinheiros e as babás não é nova e muito menos restrita a esta entidade em particular. Sou filha do Dr. Victor Hugo Ribeiro, talvez a maior autoridade brasileira em questões relacionadas a clubes e associações. Tenho alguma experiência herdada no tema desde que há muitos anos digitei seu Manual de Clubes e Associações e discuti muitos de seus verbetes ao longo da vida.

Os clubes são entidades privadas e o uso de suas dependências é restrito aos sócios. É isso que seus associados defendem com a exigência. Pessoalmente acho a “instituição clube” uma bobagem e se ainda faço parte de uma única é porque jamais pedi descadastramento e sou considerada dependente de sócio-remido. Mas compreendo a preocupação do clube.

Ao contrário de “n” tuiteiros que foram às redes sociais gritar contra a medida, consigo olhar por dentro da sala de reuniões da diretoria e ver que tem um monte de associados trazendo para dentro do clube a prima, a vizinha, a namorada, a sei-lá-quem, como se fosse a babá.  Acham que não? Gente… neste país neguinho rouba papel do escritório pra levar na escola do filho. Levam o cartucho da impressora pra casa. Acham que não encaram um papel de babá pra desfrutarem o almoço domincal do Harmonia?

Ai a babá de verdade se ferra, inevitável. Lastimável, claro. Que ruim que nem todos podem ser sócios dos clubes mas, por favor, não estamos aqui falando de acesso à saúde, educação e moradia. Acho bem defensável, ainda que patética pelo que carrega em seu bojo, a posição do clube.

O outro fato é o ignóbil  atropelamento dos ciclistas em Porto Alegre. Antes de qualquer coisa deixo aqui claro que o sujeito que faz aquilo (de acordo com o video amplamente divulgado) é um cretino completo. Não há justificativa para tal ato, mesmo considerando o quão assustador possa ser um bando de pessoas batendo em um carro como ele argumenta. Mas o ato em si  já faz dele um criminoso, não precisamos demonizá-lo ainda mais. Ao menos não sem checagens mais apuradas. E cito a tal menção a seu “histórico de multas graves”.

Ora. Eu tenho uma multa gravíssima por estar dirigindo na contramão em rua da região central. Perdi recursos em todas as instâncias e tenho provas de que não estava lá. Provas documentais e testemunhais. O DETRAN, todos sabemos, tem também um histórico de invenção de multas considerável. Claro que não atropelei pessoa alguma mas se um dia me meter em uma enrascada e vasculharem minha vida?

Este achincalhamento público é um perigo. Eventualmente o pensamento coletivo pode estar correto, mas há sempre um grande risco de estar pautado na paixão, e não na verdade. Depois será tarde para correções.

Não vejo solução para esta loucura generalizada de justiçamento. A humanidade não vai aprender a pensar antes de falar/postar. Saibam, contudo, que estas atitudes pulverizadas irão ficar sem reparação pois isto não será tão simples quanto conseguir um dano moral contra FSP ou Veja.