Posso achar chato?

A grande vantagem de ter um blog inexpressivo como este é que posso escrever o que quiser, sem medo de apanhar da humanidade. Por exemplo: posso dizer que desde que me conheço por gente acho a chamada vanguarda paulista (de todos os tempos) chata. De Itamar/Arrigo a todas novidades que percorrem o circuito cultural da modernidade ultra cabeça do tipo Petit, Becker, Aidar etc.

Eu não estou dizendo que são ruins. São bons. Apenas os acho chatos. Também não quero que sumam e parem de trabalhar. Ao contrário, que prosperem. Posso achar chato? Posso achar o que eu quiser?

Só não entendo, acompanhando o imbroglio que envolve Alvaro Pereira Jr., da FSP,  porque os adoradores deste povo podem malhar Restart e Claudia Leite (e faço coro a eles) mas o mesmo não pode ser feito com os queridinhos do universo alternativo-cabeça-universitário.

Sei que o jornalista fez insinuações/considerações políticos-econômicos… mas me irrita observar que este país anda num processo crescente de democracia “só para mim”.

Só para o que “eu” penso e acredito.

Orgulho e preconceito

Sobre o  kit anti-homofobia, que os fundamentalistas chamam de “kit-gay” não me manifesto pois não o vi com atenção devida. Mas tenho o maior orgulho de ter prestado serviço para uma escola que lidou exemplarmente com a questão há uns 10 anos, quando o tema nem em pauta estava.

Havia na escola um menino, com cerca de 12 anos, de trejeitos claramente afeminados. Seus coleguinhas começaram a tecer uma ou outra piadinha a seu respeito. Foi o que bastou para que a diretora pedagógica da escola imediatamente tomasse uma conduta, ao invés de fechar os olhos. Castigo? Bronca? Nada disso.

Ela locou o então recém lançado (no Brasil) filme francês  “Minha Vida em Cor de Rosa” e passou para os alunos. Passou para todos os alunos, em geral. E naquele mês o tema foi “diferenças”.

O princípio de perseguição parou ali mesmo. Sem drama e sem consequências .

Este é um dos meus orgulhos: saber pra quem trabalho.

Feche a guarda e orgulhe-se!

Preconceito é tema em voga. Crescem as denúncias contra manifestações discriminatórias, físicas ou psicológicas, pra cima de gays, negros, gordos… Os casos Bolsonaro e Michael, do volei, só levaram um início de discussão para o horário nobre da TV, mas o tema já está nas bocas e teclados há muito tempo.

E no acalorado das discussões surgem opiniões simplistas e simplificadoras de tudo quanto é lado. Do “não quero que as crianças sejam influenciadas pela promiscuidade homossexual” a até uma parcela, espero que pequena, do mundo gay que divide a raça humana entre homossexuais e enrustidos. É o tradicional “se ele se preocupa tanto com gays é por que ai tem”. Não necessariamente.

Vou simplificar do meu jeito também.

Fala-se muito que as pessoas não aceitam as diferenças. Não acho que o problema esteja ai. Penso até que elas amam as diferenças. Fomentam as diferenças. Regam. Constróem. Só que negativamente.

Amplificam as diferenças para, através de critérios que sabe-se lá de onde e como criaram, se sentirem melhores.

Estas pessoas não têm, como alegam, medo da influência do outro sobre nossas crianças. A perversão é mais tosca. Acho que só querem fazer com que o outro se sinta bem pequeno para, assim, se sentirem grandes.

Assim a humanidade vai se repetindo. Fala mal do carro velho do outro para chamar a atenção sobre seu reluzente importado. Acha feio o corpo da Alice Braga para valorizar sua própria falta de bunda. Ridiculariza qualquer manifestação libertária para acobertar sua falta de coragem pra chutar o balde. E acha simplória toda alegria que contraste com sua ranzinzice ou infelicidade.

Por isso a importância da resistência. Do não se deixar diminuir. Do orgulho negro. Do orgulho gay. De todo tipo de orgulho.

Menos do orgulho da ignorância, por óbvio, pois este é justamente o que atua para sobrepujar os demais.