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Uma semana na Ilha de Fidel. (Publicado em 2003 e republicado agora em honra dos novos fatos)

Domingo - 30/11/2003

Viagem longa. Ainda pior com a espera em São Paulo e a conexão no Panamá. O aeroporto do Panamá, chamado Tocomen, é uma versão em miniatura do Paraguai. Vende-se de tudo, de bebidas a quinquilharias eletrônicas, algumas coisas bem caras. Chamou a atenção que vendem sandálias Havaianas por 9 dólares. Se soubéssemos disso teríamos levado algumas. Hehehe.

A passagem pelo aeroporto Jose Marti, em Havana, teve suas peculiaridades. Inclusive revista.

Enquanto Deni esperava pelas malas fui ao banheiro. Chegando lá uma senhora me entregou um pequeno pedaço de papel higiênico, já enroladinho e pronto para o uso, nas mãos. Ao sair da minha "cabine" a mulher veio me puxar até a pia, abriu a torneira e, pegando minhas mãos, colocou sabonete nelas. Quando terminei de me lavar, sem ter qualquer chance de fugir da tal, ela pega novamente minhas mãos e coloca no ar quente para secá-las. Ao final olha para mim e diz: "mona"!

Estávamos em Cuba, definitivamente, mas a longa jornada ainda não havia terminado. No aeroporto mesmo pegamos um ônibus para Varadero, em uma viagem de aproximadamente 2 horas. Ah... enquanto esperávamos a saída do ônibus eu fumava um cigarrinho na rua. Neste meio tempo chegou para embarque um casal de velhinhos canadenses. Eles não tinham comprado o transfer e tiveram que pagar na hora. Estava escuro mas, pelo que eu e um outro brasileiro vimos, o bolinho de dinheiro entregue por eles ao motorista daria para ter comprado o ônibus inteiro. Isso para o cara nem colocar as malas dos velhinhos pra dentro.

No caminho do aeroporto para a estrada, atravessamos Havana. Vimos algumas coisas mas o que mais nos chamou a atenção foram os outdoors com mensagens de louvor à revolução, a Fidel, Che, Marti... Não dava, contudo, para ver muito pois iluminação pública não é exatamente o forte dos cubanos. Escuridão geral.

Quando chegamos ao hotel Meliá em Varadero só não ficamos mais surpresas com a qualidade do hotel e do quarto porque já o tínhamos visto em fotos na Internet. Com fome, pedimos um lanche no quarto. O lanche não é cobrado pois nossa hospedagem neste hotel corre em sistema "all inclusive" mas há uma taxa de 5 dólares para que levem até os aposentos.

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Segunda-feira - 1º/12/2003

Logo cedo Roberto, agente de turismos responsável pela nossa hospedagem, translados e afins, ligou para nosso quarto reclamando que não comparecemos ao encontro que ele marcou sozinho e do qual nem sabíamos. Quando chegou vimos um belo cubano de pele morena e dentes branquíssimos. Compramos, a 139 dólares por pessoa, um passeio a Cayo Largo, belíssima ilha com locais perfeitos para mergulho. Viajaremos na quinta-feira.

Engraçado ver um bando de "gringos" circulando pelo hotel com camisetas de Che Guevara.

Fizemos reconhecimento pelo hotel. Fomos a uma exposição de pinturas e esculturas e conversamos com uma funcionária da galeria. Ela nos contou que artistas e atletas de ponta vivem bem em Cuba. Podem comprar carro e casa. Um artista que venda um quadro, por exemplo, entrega 20% para o governo, 20% para a galeria e fica com o restante. Ela deve ser bem fidelista pois depois pensei: "governo e galeria não são a mesma coisa?". Além desta evidência, apressou-se a dizer que além dos 60% que ficam, há ainda a vantagem de não precisarem pagar médicos, dentistas etc. Contou ainda que água, luz e telefone são subsidiados. Um quadro muito legal que vimos custava 700 dólares.

Deni tomou seu primeiro daiquiri e eu minha primeira pina colada. Não vimos nenhuma farmácia no centro da cidade.

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Terça-feira - 2/12/2003

Saímos do hotel e fomos até o centro de Varadero em um "Coco", espécie de triciclo motorizado e todo aberto, com uma carenagem em fibra de vidro e pintura em verde e amarelo (7 dólares). Não há nada lá que valha a pena. Nem cubanos.

Na verdade Varadero não é Cuba. É uma espécie de Ilha da Fantasia. Só há hotéis, restaurantes e campos de golfe. O povo vive bem por conta das gorjetas.

Legal ver as crianças com seus uniformes de escola. Conversei com dois meninos muito espertos. Me explicaram que as cores dos lenços que usam variam conforme o ciclo. Pelo que entendi eles tem um primeiro grau de 5 anos, depois mais 3 do que seria o ginásio e mais 4 de ensino médio.

No centro da cidade vimos um ônibus todo pintado com frases anti-bloqueio. Infelizmente não deu tempo de fotografar. Passamos pela Clínica Internacional (para os turistas) e por uma farmácia.

Tentamos passear nas bicicletas que o hotel disponibiliza mas desistimos por duas razões: para irmos ao centro da cidade teríamos que pedalar pela estrada e as empunhaduras das bikes eram de uma borracha dura demais... nossas mãos doeram muito e Deni até fez calo em uma das mãos.

Não há sujeira alguma nas ruas.

Tinha muito sol mas o tempo fechou. Voltamos para o hotel e fomos inspecionar as instalações. O hotel tem muitos bares, restaurantes e atividades de recreação iguais ao que se vê em filmes americanos. Aulas de salsa, merengue, rumba... estas coisas. Há uma biblioteca para os hóspedes mas, por incrível que pareça, não há livros cubanos... só encontrei livros em alemão, inglês e francês. E de autores estrangeiros.

Será que querem que a gente compre ou não querem que a gente leia mesmo? Aposto mais na segunda hipótese pois ao lado do hotel há um shopping e nada de jornais ou livros cubanos.

A TV cubana tem suas peculiaridades. O esporte nacional deles é o beisebol mas mostram de todas as modalidades e categorias. Desde jogos escolares até competições de alto nível. Achei muito interessante eles colocarem notícias de medicina e fisioterapia esportiva dentro dos programas de esporte. Ah... toda hora eles mostram homenagens a pessoas que se destacam em suas áreas. Há um grande culto às personalidades locais, sejam elas políticas, artísticas ou esportivas.

No quarto do hotel não tem bíblia, obviamente. E fazem shows artísticos. Hoje tivemos um "Musical da Broadway".

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Quarta-feira - 03/12/2003

Como não para de chover, cancelamos o passeio a Cayo Largo. O tempo está horrível e sem luz... mergulhar para ver nada? Roberto disse que vem devolver o dinheiro amanhã.

Com o tempo ruim ficamos circulando pelo hotel. Experimentamos a trinca daiquiri, piña colada e mojito. Preferi o daiquiri e Deni a piña.

Quinta-feira - 04/12/2003

Como já disse, Varadero não é Cuba. No hotel há muitos europeus e canadenses e alguns sul-americanos. Não há japoneses (só um casal) e americanos são raros mas existem. Os funcionários são todos cubanos e pouco simpáticos até a primeira gorjeta. Aí tudo aparece mais facilmente. O segredo é colocar a "tip" sobre a mesa e sair pedindo. Correm pra atender. As gorjetas vão para uma caixa e eles dividem ao final do dia, imagino.

A comida é muito ruim. Os caras conseguem estragar lagosta. Apesar de tudo muito farto... não comemos qualquer coisa saborosa.

Conversamos com uma senhora que atende numa espécie de cyber-café. Deni estava curiosa sobre o sistema judiciário em Cuba. Ele existe, acreditem. Cuida de divórcios, de pequenos litígios sobre a posse de imóveis em casos de morte (posse... não propriedade) e coisas assim.

Descobrimos que ao terminarem os 12 anos de escola, os cubanos escolhem o curso que desejam cursar na universidade. Os que possuem melhores notas ao longo da vida escolar entram na universidade. Há também uma universidade para trabalhadores. Neste caso eles prestam uma espécie de vestibular e, se aprovados, freqüentam aulas apenas um dia por semana.

Roberto veio nos devolver o dinheiro do pacote para Cayo Largo mas tentou nos dar 50 pesos em lugar de 50 dólares. Não aceitamos e, ao oferecermos 12 dólares de gorjeta para ele, o dinheiro apareceu rapidinho. Pesos não servem para nada. Estrangeiros devem pagar em dólar e ponto.

Às 15 horas o ônibus que nos levaria chegou e partimos de Varadero. Durante a viagem um guia ia explicando coisas e respondendo perguntas feitas pelos turistas. Tudo é "uma das sete maravilhas da arquitetura cubana". O ônibus parou em uma roubada para tomarmos refrescos. Pura armadilha pra turista deixar mais uns dólares. Deni ficou revoltada com o preço do sorvete. Por uma casquinha do tipo Cornetto pagou 3 dólares. A estrada até que é boa e tem pouco tráfego.

Na chegada a Havana fomos deixando os turistas em seus hotéis. Tememos que o nosso não fosse legal mas não. O novíssimo LTI Panorama (8 meses) é um luxo só, com uma bela decoração. O serviço, claro, segue o padrão cubano... horrível. Mas a comida é melhor... pedi massa com salmão e
Deni pediu massa com lagosta. Quando os pratos chegaram, olhamos e imediatamente percebemos que uma havia gostado mais da cara do prato da outra. Trocamos, então.

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Sexta-feira - 05/12/2003

Dia de passear. Acordamos, tomamos café e tentamos pegar um ônibus para Havana Velha. Já na saída sofremos a abordagem de um jineteiro, termo que já conhecíamos de matérias publicadas em revistas de turismo. São pessoas que abordam turistas oferecendo charutos, rum e passeios... todos de qualidade duvidosa.

Desistimos do ônibus e fomos de Coco para o centro, direto para a Plaza de Armas e depois até a Catedral.

Havana está acabada. Nas proximidades do hotel as ruas e prédios estão legais pois estamos no bairro da embaixadas e escritórios internacionais. Passamos pela embaixada dos EUA. Não entendemos duas coisas: se os dois países não mantêm relações diplomáticas, o que os EUA fazem lá? Muitos policiais cubanos em torno do enorme prédio americano. Segundo o motorista do Coco, o policiamento é para impedir que cubanos pulem para dentro da embaixada.

Fora disso... tudo muito bonito mas sem qualquer conservação. Tem quarteirões que parecem abrigar destroços de guerra. Fios correm por fora das janelas em gambiarras assustadoras. E por aí vai.

Além de prédios fomos a uma tabacaria. Uma caixa de Romeo y Julieta custa 170 dólares. Uau!!! Optamos por comprar charutos Montecristo para os amigos que apreciam de verdade um bom charuto e uma caixa de charutos de boa procedência, mas mais baratos para distribuir como regalito aos demais.

Visitamos o Hotel Ambos Mundos pois minha literatice queria ver onde viveu e, dizem, Hemingway teria escrito "Por quem os sinos dobram". 2 dólares por pessoa para visitar o quarto dele. Ele devia ser bem duro naquela época, para viver naquele quartinho.

Passamos por vários cinemas e observamos filas quilométricas. Está acontecendo o Festival do Cinema de Havana. Interessante que eles passam na TV alguns filmes que concorrem. Um filme por dia.

Nos deixamos ser vítimas de um casal de jineteiros que se fazia passar por irmãos. Bem... ao menos nos contaram algumas coisas de Fidel. Que ele é conhecido como "Papito Piernas Longas" (não disseram o motivo). Contam que os carros que vemos são do governo... as pessoas compram o direito de usar o carro por um ano e ao término deste período devem renovar o aluguel.

É preciso ter claro que conseguiram construir uma Havana dentro de outra Havana... sem muro algum. Nos lugares que vamos só há os cubanos que lá trabalham... e os bares e lojas deles não são frequentáveis.

Se me perguntarem se é melhor ser pobre em Cuba ou no Brasil... não sei. Nunca fui tão pobre a ponto de trocar minha liberdade por uma libreta de alimentação. As crianças são saudáveis, espertas e todos, crianças e adultos, se vestem com simplicidade mas de forma digna. Ninguém descalço, por exemplo. E não se vê crianças na rua em dias de semana, a não ser de uniforme, indo ou vindo da escola. Mas a cada pergunta que fazemos para um cubano a reação inicial é a mesma. Um olhar ao redor, voz baixa... hum... parece que liberdade faz falta mesmo.

Em cada quarteirão há uma placa apontando para um tal "Comitê de Defesa da Revolução". Nossos jineteiros nos informam que isso não é uma coisa ruim. Que seriam como nossas associações de bairro. Seus dirigentes são o elo com o governo, para reivindicações. Cuidam também de delatar as crianças que não vão à escola (os pais vão em cana). Não acreditamos muito pois em Varadero soubemos que os vizinhos delatam se um começa a aparecer com muitas novidades em casa, sobretudo aqueles que recebem muitas gorjetas dos turistas. Em um país onde todos são funcionários públicos... os chefes dos tais comitês devem ser bem chegadinhos ao poder. Chefe é chefe em tudo quanto é lugar.

Como Miami está a 142 km de Havana... é de lá que recebem notícias mais facilmente. A idéia de capitalismo que têm é esta, pois. Ah... jornais e noticiários cubanos pouco falam do exterior. Apenas quando é uma notícia favorável a Cuba (algo sobre a medicina cubana, por exemplo) ou que mostre a decadência do capitalismo e suas conseqüências éticas e morais.

Célia Cruz, Gloria Estefan e Andy Garcia jamais são lembrados. Devem ser considerados traidores da revolução. De Célia Cruz dizem que Fidel não gosta por ela ter pintado o cabelo de loiro. Em compensação, Sílvio Rodrigues (Yollanda) está em todas. Deve ser unha e carne com Fidel. E Che Guevara... bem... este deu a sorte de ter morrido antes de virar um ditador acomodado e por isso é ainda idolatrado.

As mulheres cubanas falam em novelas quando sabem que somos brasileiras. Está passando lá uma novela chamada ¿Aquarela Brasileira¿. Pelo que nos falaram deve ser Terra Nostra ou Esperança.

O ponto fraco do dia foi nossa ida até a famosa sorveteria Coppelia. Fica em um parque lindão... mas há vários quiosques. Fomos nos sentar em um animadinho mas o garçon não deixou. Turistas e seus dólares para lá. Um casal de cubanos bem que tentou interceder em nosso favor mas não deu em nada. Eles disseram que se tivéssemos pesos pagaríamos 1 peso por dois sorvetes de duas bolas. Como não somos... acabamos pagando 6 dólares pela mesma quantidade de sorvete e uma água mineral. Na sorveteria o problema foi mais visível mas percebemos isso o tempo todo e, confesso, me incomodou muito, apesar do sorvete ser bom mesmo.

Em todos os lugares do mundo há turismo para todos os bolsos. Em Cuba não. Aqui não há a possibilidade de você viver como os cubanos, almoçar nos restaurantes deles, andar de ônibus... nada disso. É a tal Havana dentro de outra Havana que já falei. Uma chatice. Neste dia comecei a me referir aos turistas como ¿os otários¿.

Fomos também a outro ícone cubano... a Bodeguita Del Medio. O bar é tombado pela ONU como patrimônio da humanidade. Lá comemos comida criolla... um frango saboroso com um tempero que eles não revelam e que não consegui distinguir o sabor. Não é maravilhoso mas bem melhor que o usual por aqui.

Depois do almoço fomos até o Museu da Revolução mas não entramos. Imagino que fosse interessante mas já estava irritada por ter que pagar para tudo. Nada é de graça... nem o sorriso do cubano. Isto cansa.

Na saída do museu pegamos um táxi alternativo. Um daqueles carrões antigos e que soltam um gás legal para fora e para dentro dele. O táxi foi parado por um policial, que multou o motorista em 30 pesos. O motorista disse que foi flagrado transportando turistas mas não estou bem certa. Ele pode ter dobrado a esquina em local impróprio e ter contado isso para nos comover e ganhar mais gorjetas. Se for verdade... deve querer nos matar por conta de nossa máquina fotográfica. Mas o táxi ilegal foi bem mais barato para nós que os regulares.

Paulo Coelho é o único escritor brasileiro encontrado em Cuba. Há todos os livros dele menos O Peregrino e O Alquimista, que estão esgotados. Não sei porque odeio esta informação. Mas entramos em uma livraria que tinha livros de diversos autores e países, inclusive best-sellers americanos traduzidos para espanhol. Os latinos, contudo, predominam. A vendedora queria que eu comprasse um livro de poesias... mas como era um presente para meu pai, optei por um de crônicas. Pedi algo em prosa mas que o autor fosse um clássico cubano. Veremos.

Observações:
1. Como podem pegar ingredientes normais e deixarem tudo horrível? O jantar no buffet do hotel estava pior que comida de quartel. Os caras comem arroz al dente;
2. ao falarem mal do governo dão a impressão de tentarem se fazer de coitadinhos para ganharem mais gorjeta;
3. Se o troco é de 20 dólares, por exemplo, o garçon dá um jeito de trazer todo o dinheiro em notas bem trocadinhas para não correr o risco de ficar sem grojeta; e,
4. Vimos um linguicinha preto e Deni ficou com saudade do Happy.

Sábado - 7/12/2003

Acordamos tarde e pedimos café no quarto. Quiseram os cobrar 17 dólares mas pagamos 5. Tínhamos direito a ele... só pagamos a taxa de serviço.

Dia de chuva forte e muito vento. El Malecón é invadido pelas ondas e interditado. Vamos de táxi a Habana Vieja e paramos em uma feira de artesanato para comprarmos recuerdos e regalitos. A qualidade dos artistas plásticos é boa, mesmo nestes locais públicos. Mas há uma série de quinquilharias que acho que são feitas em uma grande fábrica na China e vendidas para o mundo inteiro como artesanato local.

Sentamos no El Pateo, um restaurante muito bacana, para fugir da chuva. Como em todos os lugares, a música ao vivo é de excelente qualidade. Tanto os conjuntos de música cubana quanto os pianistas de música ambiente.

Finalmente descobrimos uma outra cerveja que não a Cristal (muito ruim). A Bucanero é bem melhor. Mas a tal Tucola prevalece. Não é tão ruim. Demos pão no restaurante para pessoas que chegavam pela sacada.

Após o lanche visitamos o Gran Teatro. Uma construção maravilhosa que, como tudo em Cuba, sofre a ação do tempo e da má conservação (ou nenhuma). Uma guia muito simpática nos leva a conhecer o teatro, coisa rara. Ela trabalha de graça como guia, em troca da escola de idiomas. Pelo que ouvimos, fala inglês, italiano, alemão e francês. Nada mal.

É neste teatro, construído em 1838, que trabalha a lendária Alicia Alonso, já com 85 anos. Ela é diretora artística do Balé de Cuba, que naquela noite estrearia um espetáculo baseado em Shakespeare. Tentamos comprar ingressos mas estavam esgotados. Quando fomos ao ateliê de confecção dos cenários os artistas nos ofereceram desenhos e esboços ¿originais¿. Não se pode culpá-los... com salário que ganham... (7 dólares por mês é o salário de um motorista de Coco, por exemplo). Isso é... ele ganha por mês o preço de uma corrida.

Quando saímos do teatro demos uma gorjeta para a guia. Ela exultou e gritava: "uma propina, uma propina". Nos arrependemos de não termos dado mais.

Em compensação, fomos roubadas no famoso restaurante El Floridita. 9 dólares por um daiquiri e um cafezinho. Ok... é o preço da fama.

Hoje, sábado, crianças e velhos pedem dinheiro nas ruas e restaurantes. Uma mulher pediu roupas e batom para a Deni, que desconversou. Mas parecia meio doida.

Domingo - 08/12/2003

Enquanto esperamos o ônibus que nos levará ao aeroporto para a viagem de volta, conhecemos uma brasileira que nos fez concluir algo: só é possível conhecer Cuba se você for para lá fazer um curso ou algo assim. Ela fez doutorado através de uma bolsa sanduíche (metade no Brasil e metade em Cuba). O orientador era Cubano. Não há como eles esconderem tudo de alguém que fique num vai-e-vem por 4 anos e que conviva mais amiúde com os cubanos.

Vejamos o que ela nos contou:

1. O orientador dela não podia entrar no hotel para trabalharem. Só conseguiu permissão após apresentar uma carta do reitor da universidade para a gerência do hotel;
2. a vice-reitora da Universidade de Havana ganha 40 dólares por mês e mora num apartamento caidaço, sem luz e longe demais;
3. A tal caderneta de alimentos (libreta) tão exaltada pelos governistas, só dura 15 dias. Ela dá direito a feijão, arroz, uma barra de sabão, um frango... Famílias com crianças de até 7 anos têm direito a 1 litro de leite por dia, depois necas;
4. Um pacote de absorvente custa 1,5 dólares. As mulheres não ganham e nem conseguem comprar;
5. Mesmo que tenham dinheiro das gorjetas... não há muito a comprar. Não existe comida, material hidráulico e elétrico, lâmpadas, estas coisas; e,
6. Ela levou para eles uma mala cheia de sabonetes, biscoitos, balas, absorvente e coisas do gênero. E levou, pasme, papel e cartucho de impressão. Na universidade os caras não têm sequer papel disponível. Levou modem e outros componentes de computador para melhorar as coisas no departamento em que estudou.

Na saída para o Panamá maior fila e controle. Nos cobraram 25 dólares por pessoa para deixar sair. Seria um imposto de turismo. Se não tiver dinheiro... sem problemas. Eles não são socialistas ao ponto de desconhecerem o cartão de crédito.