Tudo de novo no front

Gente do céu! Deixei de ser a versão old-woman-piá-de-prédio e estou amando. Eu morava em um condomínio com casona, terrenão, quadra de tennis, piscina, tucanos, serelepes etc. Andava também num flamejante carro destes que todo mundo ama e acha lindinho. Então minha vida deu uma guinada, vou poupá-los e a mim dos detalhes sórdidos, e decidi colocar em prática algo que já vinha pensando há algum tempo: simplificar a vida.

Indico muito.

Achei apartamento num prédio antigo, caído, o barriga negativa em termos de luxo. Porém reformado por sua antiga proprietária, uma arquiteta que recomendo, e feito sob medida para minhas necessidades. Num bairro muito próximo ao centro e com tudo perto. Muito perto. Tão perto que passei a fazer quase tudo andando. Em Nova York as pessoas moram assim e os brasileiros “moderninhos” acham cool. Aqui não sei…

Ao invés de um personal indo em casa, passei a frequentar pequeno estúdio a dois quarteirões. As aulas são em duplas e pago 50% do que pagava antes. Na frente do prédio tem um salão com excelentes manicures e pedicures. Vou até lá de chinelinhos. Lindo. E outro dia meu fiel pau-pra-toda-obra falou que eu precisava trocar o sifão da pia do banheiro e tão somente atravessei a rua para comprar um na mercearia que tem de tudo, tipo aqueles antigos armazéns.

Mesmo o tennis, minha paixão eterna, não sofreu. Para jogar saí do isolamento a que me submeti por anos e ingressei em um grupo com mais de 30 mulheres tenistas. E num raio de no máximo 2 quilômetros existem três academias com professores e quadras de aluguel. Banco e todo tipo de comércio próximos, ao mesmo tempo em que minha rua é muito tranquila, entre avenidas de maior movimento.

Padarias artesanais, restaurantes de diversos tipos e de etnias variadas, bares…

E já que não ando mais tanto de carro e nem estou disposta a gastar uma viagem a Paris por ano entre IPVA, seguro e revisão, troquei meu automóvel por um mais em conta. Até agora muito satisfeita porque vamos falar a verdade… se um carro fosse responsável por minha felicidade aí sim eu estaria encrencada.

Agora o melhor: nestas andanças todas pra cá e pra lá eu interajo com as pessoas, algo que num condomínio afastado de tudo eu não fazia mais. Falo com o gari, já estou amiga do cadeirante que vende sacos de farinha na esquina da academia, do moço do lava-car e converso com gente de universo que vai além dos laços profissionais/mercantis.

Não tenho mais (e nem componho) entourage, só amigos com quem mantenho relações de igualdade. Gente que combina, cotiza e faz a festa. Que se empenha em me apoiar nesta nova vida por nada. Só porque eu sou legal.

Até um  novo trabalho tem me mobilizado. Algo diferente, novo para mim. Instigante.

Uma vida real que permite que eu não deixe de fazer as coisas que amo mas de forma “sustentável” e mais humana.

O que eu fiz está lá. Tenho muito orgulho de minha capacidade construtiva. Se fui capaz de construir paredes, muito mais prazeroso me erguer.

Faz um bem enorme, sobretudo por não ter deixado para trás rastros de indignidade.

“tenho uma vida branca
e limpa à minha espera” (Ana Cristina César)