Anjos não caem do céu

Histórias de anjos que chegam à Terra para salvar ou dar novo sentido a vidas humanas não são novidade.

Histórias de anjos que chegam à Terra para salvar ou dar novo sentido a vidas humanas não são novidade. A Bíblia conta algumas, a literatura outras e o cinema idem. De todas prefiro a contada por Pier-Paolo Pasolini em Teorema (livro e filme), que subverte a imagem que o senso comum usualmente atribui aos anjos. Em Teorema o anjo (ou demônio?) não muda seus escolhidos através da bondade, ao contrário. Ele o faz por meio da sedução, da manipulação… da carne. 


É claro que um “anjo” com tal natureza é para poucos. Há que ter uma dose elevada de ceticismo e um tanto de estômago para se deixar envolver por ele. Melhor esperar por uma entidade mais parecida com o  Rafael, o anjo que sai (ou saiu) do ar na sexta-feira.


Ele é como um Messias que baixa para justiçar os desvalidos, vingar os oprimidos e converter os não totalmente perdidos. É a solução para nossas vidas. 


Interessante observar que as três novelas da Globo lançam mão do misticismo como elementos de seus roteiros. Simultaneamente a emissora colocou no ar personagens como Iemanjá, em Porto dos Milagres; os anjos e o próprio Deus, em Um Anjo Caiu do Céu; e Nossa Senhora de Aparecida, em A Padroeira.


Se quisesse lançar uma teoria conspiratória diria que não se trata de coincidência. Pensando bem, diria, “é mais uma jogada do projeto de marketing religioso” denunciado nesta mesma coluna em outra ocasião.


Vejamos, para dar escopo a minha tese: o que evangélicos (leia-se TV Record) mais  combatem? Não são as imagens de santos utilizadas pela religião católica e  presentes em A Padroeira? Não são os espíritos primitivos das religiões afro-brasileiras, dignificados e celebrados em Porto dos Milagres e sua Iemanjá? Não seria a vulgarização do papel de nossos conservos (anjos), ocorrida em Um Anjo Caiu do Céu?


É… se eu lançar esta tese na rede em forma de corrente vai ter muita gente acreditando nela. Há sempre quem adore acreditar em um grande complô. 


Mas falando sério… o caso da religiosidade simultânea coincidência não é. É só o reflexo do que anda rolando nas cabeças por aí.


Parece que a Globo descobriu que o povo não engole mais a ascensão social através do casamento, tema recorrente em todas suas novelas do passado. A coisa está tão feia que neguinho deixou de acreditar em príncipe encantando e agora está apelando para o imaterial… para o divino… para o milagre.


A coisa está preta! Eu só queria ver se este povo visse Teorema e descobrisse o quão improvável é tudo isto